Cristianismo

Leitura e estudo da Bíblia

3 de maio de 2015

Leia em 10 minutos

livros-coloridosNenhum cristão pode achar que conhecer a Bíblia é algo de pouca importância. Decorar trechos bíblicos e saber detalhes sobre os livros da Escritura não é sinônimo de ter o caráter edificado sobre Cristo e nem a vida construída sobre a Rocha. Contudo, ter a vida e o caráter edificados para ser semelhante ao Mestre passa por conhecer a Bíblia. O caráter do cristão que quer se habilitar para o céu deve estar alicerçado sobre o livro que, cremos, Deus nos deixou para fomentar nossa fé e alimentar nossa esperança. Não somos salvos pela Bíblia ou por conhecê-la, somos salvos pela graça, que vem por meio da fé, e a fé é um dom de Deus (Efésios 2:8). Porém, a fé nasce da diligência em conhecer e praticar o que está na Palavra de Deus:

“Consequentemente, a fé vem por se ouvir a mensagem, e a mensagem é ouvida mediante a palavra de Cristo” Romanos 10:17

“Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando vocês mesmos” Tiago 1:22

Estabelecida a importância da Palavra, quero destacar alguns pontos. O primeiro é a diferença entre ler e estudar a Bíblia. Ler a Bíblia é fundamental e deve ser uma prática diária. Todos os dias deveríamos cultivar o hábito de ler uma porção das Escrituras. Há planos de leitura anuais da Bíblia que chegam a instruir que se leia de três a cinco capítulos diários. Porém, um ritmo mais lento pode até ser mais proveitoso. Se lermos um capítulo por dia poderemos ler a Bíblia toda em até três anos. Se você é um completo iniciante, uma técnica pode ser fazer planos mais curtos com roteiros específicos. Eu uso em meu celular um aplicativo da Bíblia que possui planos curtos (5 dias, 15 dias, 40 dias, entre outros) com lembretes diários. É uma estratégia para começar. Lembre-se que você não está se preparando para uma prova, está se preparando para encontrar seu Salvador.

Estudar a Bíblia é algo mais complexo e todo cristão deveria se empenhar nesse objetivo. Não, você não será salvo pelo seu empenho em estudar a Bíblia, mas há deleite em conhecer de maneira mais profunda as vontades do Senhor através do estudo diligente da Palavra. Afinal, se as coisas  que estão reveladas “pertencem a nós e aos nossos filhos para sempre” (Deuteronômio 29:29), como conheceremos a Sua vontade revelada se não aplicarmos nossa mente e coração ao conhecimento da Palavra. Estudar a Bíblia implica em ler e aprofundar-se naquele trecho. O estudo da Palavra implica em entender os contextos literário, histórico, cultural e geográfico que estão ali; tanto quanto possível buscar indicações de significado nas línguas originais; e procurar conhecer outras referências dentro da própria Bíblia sobre aquele trecho ou assunto. Portanto, é importante dedicar tempo de qualidade para isso e, ainda que não seja possível o estudo diário, ele não deve ser esporádico e sim regular. Algumas ferramentas de estudo são úteis e vamos abordar mais sobre elas neste texto. Antes, entretanto, gostaríamos de falar da importância de estudar sozinho.

Obviamente o ministério da igreja é importante. Paulo advertiu-nos a não deixar de congregar-nos (Hebreus 10:25). Portanto, não há dúvidas de que Deus determinou um papel a igreja que passa pelo fortalecimento na fé, pelo encorajamento mútuo e, particularmente, pelo ensino. Contudo, o exercício das funções da igreja não retira nossa necessidade e dever de instrução bíblica individual. Em outras palavras, estudar sozinho é fundamental para não depender de quem quer que seja. Cristãos que ignoram a Palavra são ovelhas facilmente manipuladas e não podemos nos esquecer que é a coceira nos ouvidos daqueles que escutam a mensagem que permite que falsos mestres ascendam na comunidade cristã (2 Timóteo 4:3). É a falta de conhecimento que faz com que os servos de Deus pereçam (Oséias 4:6). Que possamos imitar o exemplo da igreja em Beréia.

“Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicensses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras, para ver se tudo era assim mesmo”. Atos 17:11

Para não depender de ninguém é importante ver a Bíblia da maneira que ela é, ou seja, considerando que ela é a palavra de Deus mas está afastada de nós na história, na geografia e na cultura. Portanto, é importante o uso de ferramentas que facilitem seu uso. Dicionários bíblicos e manuais bíblicos são muito úteis para esclarecer verbetes os quais não temos muita familiaridade e para oferecer certo panorama e contextualização dos livros da Escritura. O uso de referências cruzadas também é recomendado, começando pelo que está mais próximo e indo ao que está mais distante. Em outras palavras, deve-se olhar primeiro o capítulo no qual a palavra está inserida, em seguida o livro, obras eventuais do mesmo autor, da mesma época e, por fim, no restante da Bíblia. Eu uso como ferramentas de referências cruzadas a Bíblia Thompson, a Enciclopédia Temática da Bíblia (ed. Vida Nova) e, em ingês, a Nave’s Topical Bible.

É também comum o uso de comentários bíblicos. De fato são de grande auxílio, mas minha impressão é que estes deveriam ser consultados por último. É grande a tentação de buscar logo o comentário sem analisar e investigar as próprias impressões e conclusões daquele trecho bíblico. O aprendizado fica insuficiente uma vez que trata-se da opinião de outra pessoa (ainda que seja um erudito) que pode direcioná-lo para o caminho mais fácil e, na pior das hipóteses, errado. Por isso desaconselho como Bíblia regular aquelas onde o comentário vem embutido no texto. Como ferramenta de consulta é sempre bom ter em mãos, mas não deve ser a primeira ferramenta a ser consultada. Eu costumo lançar mão do Comentário Bíblico NVI, mas é sempre a minha ferramenta última de consulta.

Um alerta, contudo, se faz necessário. É preciso ter cuidado para não achar que toda e qualquer conclusão que nós individualmente chegarmos é isenta de erro e mostra-se a expressão total da verdade. Pedro já nos advertia em relação a tentação de  cedermos à interpretação pessoal ou, em outras traduções, a “particular interpretação” (2 Pedro 1:19-20)

“Assim, temos ainda mais firme a palavra dos profetas, e vocês farão bem se a ela prestarem atenção, como a uma candeia que brilha em lugar escuro, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em seus corações. Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” 2 Pedro 1:19-21

O fato é que o verso 20 ganha ares de advertência para aqueles que pretendem chegar a “novas verdades” ou a “novas revelações” sozinhos. Ainda que a palavra de Deus nos inste a ser um pouco céticos e buscar sempre uma posição mais esclarecida em relação àquilo que nos é ensinado, também nos pede atenção para que o nosso filtro não seja meramente o julgamento individual, a “particular interpretação”.

Assim sendo, pedindo sempre a orientação do Espírito de Deus, devemos usar como filtros tanto a Bíblia (João 17:17) quanto os irmãos da igreja (1 Pedro 2:9). A Palavra de Deus por meio de uma rotina sistemática de estudo e leitura, e os irmãos na fé através da interação, do diálogo e de livros que possam esclarecer eventuais pontos nebulosos. Fazendo isso estaremos evitando conclusões precipitadas.

A ressalva de Pedro torna-se bastante relevante para nós hoje que, muitas vezes arrogantemente, achamos que nosso julgamento individual é critério suficiente para interpretar a Bíblia, e sobretudo as profecias. Outro cuidado que recomendo é o uso de uma tradução de fácil compreensão, e qual ela seria vai variar de pessoa para pessoa. Eu, particularmente, gosto de usar a Nova Versão Internacional tanto pelo estilo de escrita, pela forma como foi feita a tradução e por possuir um português recente. Por favor, exceto para momentos devocionais, não use paráfrases (p. ex. Nova Tradução na Linguagem de Hoje, A Mensagem). Elas não são traduções, são versões úteis para facilitar a leitura e ajudar na devoção. Não são boas ferramentas de estudo.

Que possamos nos dedicar mais e mais à leitura e ao estudo da Palavra de Deus, certos de que ao examiná-las encontraremos a vida eterna, revelada em Cristo Jesus.

Foto: St. Lawrence University.

Veja também

1 Comentário

  • Reply A importância de tomar notas na igreja 9 de agosto de 2015 at 10:37

    […] O hábito de tomar notas durante as pregações que ouvimos na igreja pode ser extremamente útil para revisitar o tema em casa e reler as passagens abordadas, eventualmente para confirmar aquilo que o pregador disse ou captar novos insights – lembre-se do exemplo dos bereanos que recebiam a mensagem com “grande interesse” e examinavam todos os dias as Escrituras com o objetivo de “ver se tudo era assim mesmo” (Atos 17:11). Você pode inclusive estudar mais profundamente uma passagem ou o tema abordado durante o sermão (veja Leitura e estudo da Bíblia). […]

  • Comente aqui