Cristianismo

O inferno existe

31 de maio de 2015

Leia em 9 minutos

fogoHá quem questione a justiça de Deus em virtude da existência do inferno. Quando se pensa nesse termo vem logo à mente a imagem retratada por Dante Alighieri em “A Divina Comédia”: um lugar onde o inimigo de Deus, Satanás, reina e atormenta as almas dos pecadores com fogo.

Essa imagem, contudo, é bíblica? Não pretendemos aqui esgotar o assunto, mas compartilhar um estudo sobre esse tema. A questão não é se o inferno existe ou não. Segundo a Bíblia, ele existe. A pergunta é: o sofrimento dos ímpios é/será sem fim?

O método

Nosso estudo usou da seguinte metodologia:

  1. Focamos os trechos bíblicos que se encontram no Novo Testamento onde podemos encontrar as duas palavras gregas mais comumente traduzidas para a língua portuguesa como inferno: Hades e Geena.
  2. Fizemos a cada um dos trechos as duas seguintes perguntas: a) Quando o termo é usado ele se refere ao destino dos pecadores não-salvos? b) Quando o termo é usado traz a ideia de sofrimento sem fim?
  3. Nenhuma doutrina deve ser extraída de apenas um trecho.
  4. Trechos que não são simbólicos têm prevalência sobre trechos simbólicos (p. ex. parábolas, profecias).

O termo Hades

O termo Hades pode ser encontrado nos seguintes trechos: Mateus 11:23; 16:18; Lucas 10:15; 16:23; Atos 2:27, 31; Apocalipse 1:18; 6:8; 20:13 e 14.

Nos trechos não-simbólicos, a evidência é fortíssima a favor de um lugar tanto de justos como de injustos. A tradução da Nova Versão Internacional, inclusive, nas vezes em que o termo Hades aparece, traz uma nota de que duas traduções possíveis seriam sepulcro ou profundezas (além de morte ou inferno). No trecho de Atos 2:27 e 31 a referência é inclusive a Cristo ter ido ao Hades. Portanto, tanto salvos como perdidos vão para o Hades. A mim parece que a melhor tradução seria “mundo dos mortos”.

Os trechos simbólicos são apenas os versos de Apocalipse (profecia) e Lucas 16:23 (parábola). Em Apocalipse, o termo Hades não é usado com conotação que demonstre a ideia de um sofrimento sem fim. O único trecho onde ele aparenta referir-se a um sofrimento sem fim é em Lucas, onde se lê (grifos nossos):

No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado.

Lembrando que uma doutrina não pode se basear apenas em um versículo e que este trecho é simbólico, cabe aqui a observação encontrada no Comentário Bíblico NVI ao comentar a parábola do Rico e do Lázaro de Lucas 16:19-31 (p. 1684 e 1685, negrito nosso):

As expressões “juntos de Abraão”, “grande abismo” e “este lugar de tormentonão devem ser forçadas demais em sentido literal material, e seria muito imprudente tentar descrever a vida após a morte com base nos detalhes descritos aqui. (…) Hades: No uso geral em grego, era quase equivalente ao hebraico Sheol, o túmulo, a moradia dos que haviam partido, bons ou maus, mas posteriormente passou a ser usado quase exclusivamente como lugar dos maus que haviam morrido.

Um outro adendo: esta parábola estaria, no máximo, referindo-se ao estado intermediário (entre nossa morte e ressurreição, no fim dos tempos) e não ao destino eterno de justos e ímpios.

O termo Geena

Este termo grego não é encontrado em nenhuma parte simbólica da Bíblia. Ocorre em Mateus 5:22, 29-30; 10:28; 18:8 e 9; 23:15, 33; Marcos 9:43-47; Lucas 12:5; Tiago 3:6.

A tradução literal seria “Vale de Hinom” (do hebraico Ge’Hinom). Sua localização é incerta, mas sabe-se que ele ficava ao sul de Jerusalém. Estava fortemente relacionado aos sacrifícios de crianças no fogo feitos ao deus amonita Moloque. Voltaremos a este vale daqui a pouco.

Nos trechos mencionados, o único trecho onde o termo Geena parece indicar um sofrimento sem fim é em Marcos 9:43-48, onde se lê (grifos nossos):

Se a sua mão o fizer tropeçar, corte-a. É melhor entrar na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ir para o inferno, onde o fogo nunca se apaga, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. E se o seu pé o fizer tropeçar, corte-o. É melhor entrar na vida aleijado do que, tendo os dois pés, ser lançado no inferno, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga. E se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o. É melhor entrar no Reino de Deus com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no inferno, onde “o seu verme não morre, e o fogo não se apaga”.

O detalhe interessante é que os manuscritos mais antigos não trazem o trecho em negrito nas duas primeiras ocorrências, apenas na última, verso 48. Este trecho faz referência a Isaías 66:24, cujo trecho é simbólico, e retrata o tipo de cenário que se poderia encontrar fora da cidade santa prometida na remissão de Israel, um cenário escatológico portanto (grifos nossos):

“Sairão e verão os cadáveres dos que se rebelaram contra mim; o verme destes não morre­rá, e o seu fogo não se apagará, e causarão repugnância a toda a humanidade.”

O texto do profeta Isaías não faz referência a pessoas conscientes sofrendo “pelos séculos dos séculos”, mas a cadáveres. O Novo Dicionário da Bíblia traz, ao falar sobre o vale de Hinom a seguinte referência:

Posteriormente, [após o reinado de Josias] o vale evidentemente passou a ser usado para queimar os cadáveres dos criminosos e animais, em realidade servindo de cremação para qualquer espécie de lixo.

Há uma relação aqui simbólica e, portanto, metafórica. É muito exagero tentar transpor o termo geena para um sentido literal e material.

Fogo eterno

O trecho de Mateus paralelo a Marcos, no capítulo 18, verso 8, traz o termo “fogo eterno”. Não é o sofrimento que é eterno, é o fogo. Diante do exposto, o termo eterno aqui parece-me ter mais o sentido de definitivo, que não pode ser extinto. Sobre Sodoma e Gomorra, por exemplo, é dito em Judas 7 que sofreram o castigo do “fogo eterno”. Elas não estão queimando até hoje.

Em Apocalipse 20:10, por exemplo, encontramos a informação de que Satanás (bem como a besta e o falso profeta) será lançado no lago de fogo e será atormentado “de dia e noite, para todo o sempre.” Os versos 14 e 15 também chamam atenção pois a morte, o Hades (olha ele aqui!) e os que não foram achados no livro da vida do Cordeiro foram lançados no lago de fogo. O Hades será jogado no lago de fogo! Parece evidente que são duas coisas diferentes.

Atenção: Apocalipse é um livro altamente simbólico. Novamente, vale ressaltar aqui o que encontramos no Comentário Bíblico NVI (p. 2255-2256, grifos nossos):

Visto que a besta e o falso profeta são figuras representativas de sistemas, e não de indivíduos, está em vista aqui evidentemente a destruição definitiva do mal. (…) O evangelho proclama Cristo como a “morte da morte e a destruição do inferno”; em 1 Co 15.26, a morte é vista como o “último inimigo a ser destruído” por ele, mas em 2 Tm 1.10 a fé o vê como aquele que, por sua própria morte e ressurreição, já “tornou inoperante a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade por meio do evangelho”.

Definitivo é definitivo

Caros leitores, fim sem fim não é fim. Não se poderia falar em destruição do mal se ele não deixar de existir. Alguns trechos do Antigo e Novo Testamento deixam claro que o fim do mal será definitivo: 2 Tessalonicenses 1:9 fala em “destruição eterna”; 2 Pedro 3:7 nos conta que haverá “destruição dos ímpios”; Obadias 16 relata em um fim “como se nunca tivessem existido”; Provérbios 10:25 e Salmo 37:10 falam que o ímpio deixará de existir. Há outros versos de igual teor, mas não cabem todos neste espaço.

Diante das evidências extraídas dos termos gregos Hades e Geena, para mim está claro que a palavra inferno deve ser usada como tradução apenas quando aplicada ao termo Geena. E não remete a ideia comum que se tem. É uma punição àqueles que não se salvarão, mas que será definitiva. O mal terá um fim, deixará de existir. Aleluia!

Você e eu somos convidados a nos livrarmos do castigo do Geena. Somos convidados a um novo céu e uma nova terra, onde habita justiça (2 Pedro 3:13, Apocalipse 21:1-7) e a beber da água da vida (Apocalipse 22:17).

Imagem: CCTV

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