Cristianismo

O Boticário, parada gay, tolerância e liberdade

14 de junho de 2015

Leia em 16 minutos

opiniaoNos últimos dias fomos apresentados em nosso país a pelo menos dois acontecimentos midiáticos que levaram a polêmicas envolvendo os cristãos. Refiro-me a propaganda televisiva da rede de cosméticos O Boticário que apresentava casais heteros e homos se presenteando no dia dos namorados e a cenas de uma transexual “crucificada” na parada gay. Como não poderia deixar ser, algumas figuras públicas ditas cristãs se manifestaram em redes sociais, vídeos ou em outros veículos de comunicação se queixando destes dois acontecimentos – um deles chegava a conclamar outros líderes a fazerem o mesmo e publicamente reprovarem estes fatos. Eu, particularmente, não achei a propaganda de O Boticário ofensiva, apesar de não ter gostado. O mesmo não posso dizer das notícias e imagens que vi sobre o que foi feito em São Paulo, além de não ter gostado, achei ofensivo.

Sou daqueles cristãos que acreditam que nossas opiniões enquanto representantes do evangelho deve partir da Bíblia – ela é a autoridade última que baliza nossas crenças e nossas atitudes. Uma vez que creio nisso, refleti sobre o que a Bíblia ensina sobre tolerância e liberdade. Ao escrever esse texto não queria ir em direção ao caminho mais fácil e dizer simplesmente “tudo bem, devemos amar a todos pois Deus é amor”. Esse tipo de flerte com o universalismo não faz parte do escopo deste blog nem das crenças do seu autor. Também não queria ocupar o lugar de acusador (já há um ser que faz isso há muitos milênios, ele não precisa e nem eu quero dar a ele meu auxílio) e simplesmente sair condenando A ou B. Queria produzir um texto que emanasse das Escrituras e pudesse ensinar a mim e a outros alguma coisa. Não sou dono da verdade nem pretendo esgotar o assunto, mas o texto produzido segue abaixo.

Refletindo sobre que trecho bíblico usar, surgiu em minha mente o relato encontrado em Atos 19, que descreve o ministério evangelístico exercido por Paulo em Éfeso – particularmente a confusão que ocorreu no teatro da cidade. Recomendo que você leia este relato. Está disponível aqui.

Contexto da cidade e do ministério paulino na Ásia (Atos 19:1-20)

Éfeso era a cidade principal da Província da Ásia. Segundo o comentário bíblico NVI esta província romana abrangia a “próspera e densamente povoada costa do mar Jônico desde o Helesponto até a Lícia, com uma penetração significativa para o coração da Ásia Menor”. As sete igrejas destinatárias originais do livro de Apocalipse, por exemplo, se encontram nesta província.

O ministério de Paulo nesta região começou na cidade de Éfeso e foi marcado por um evento sobrenatural: doze discípulos de João Batista que ainda não haviam ouvido falar de Cristo receberam o Espírito Santo e manifestaram o dom de falar em outros idiomas. Após isso, como de costume, Paulo passou a “[argumentar] convincentemente acerca do Reino de Deus” entre judeus na sinagoga. Fez isso por três meses “com liberdade” até que alguns não gostaram do que estavam ouvindo e não permitiram mais a Paulo falar naquele lugar. Paulo então encontrou espaço para continuar seu ministério na escola de Tirano. Provavelmente um centro grego de palestras e debates. Lá ele falava diariamente.

O ministério de Paulo foi amplo e cercado de milagres durante os mais de dois anos que ali ficou proclamando o evangelho. Numa época sem o alcance dos meios de transporte e comunicação que temos hoje, “todos os judeus e gregos que viviam na província da Ásia ouviram a Palavra do Senhor” (v. 10 – grifos nossos). Quando ele já pretendia partir dali para Macedônia, Acaia, Jerusalém e Roma aconteceu uma confusão na cidade.

O tumulto em Éfeso (Atos 19:23-41)

Nessa confusão, um ourives da cidade, Demétrio, com a ajuda de outros artífices arrastaram dois companheiros de Paulo, os macedônios Gaio e Aristarco, ao teatro da cidade. Pretendiam, provavelmente, expor Paulo, mas este foi impedido pelos discípulos de ir ao teatro a fim de não por mais “lenha na fogueira”. Demétrio argumentava que o ministério de Paulo poderia acabar com a adoração à deusa Ártemis em toda a província da Ásia (isso nos dá uma ideia da visibilidade que o ministério de Paulo atingiu). Contudo, a real preocupação de Demétrio era outra: tinham medo que o evangelho de Cristo colocasse em risco sua profissão e acabasse com a sua “boa fonte de lucro” (v. 25).

O tumulto se torna muito acalorado. Pessoas gritam muitas coisas, mas a maior parte das pessoas nem sabia porque estava ali. Ou seja, havia uma boa quantidade de curiosos e desocupados. Durante duas horas a multidão grita “Grande é a Ártemis dos Efésios” após um judeu chamado Alexandre, suponho um convertido ao evangelho, tentar falar algo. Parece que os próprios judeus não eram muito bem vistos uma vez que sequer deixaram ele falar.

A confusão somente se encerra quando o escrivão da cidade, claramente um adorador da deusa Ártemis, consegue falar a multidão e argumenta que aqueles homens “não tinham roubado templos nem blasfemado” contra a deusa deles. Acrescenta que se Demétrio e os outros artesãos se sentiam prejudicados de alguma forma, que levassem sua queixa aos tribunais. Ora, que recorressem a lei. A confusão se desfez e os ânimos parecem ter serenado.

Paulo então, segue com seu plano original e viaja (Atos 20:1).

A ação e reação de Paulo e dos seus discípulos

Paulo falava do evangelho, quando perdia um local onde não podia mais proclamá-lo, procurava outro. Ele não estava coagindo ninguém a aceitar o evangelho. Ele estava convencendo as pessoas. Seu ministério era acompanhado por manifestações sobrenaturais, mas sobretudo era um ministério de pregação e argumentação.

Não há qualquer relato bíblico a demonstrar Paulo reagindo com agressividade seja com crentes ou descrentes. Ele muitas vezes usava palavras duras com cristãos (basta ler suas cartas para perceber), mas nunca elas parecem ser palavras grosseiras ou ofensivas. Muito pelo contrário, mansidão era algo pregado, mandado e vivido por Paulo (Gálatas 6:1). O apóstolo dizia o que precisava ser dito, mas a forma também era sobremaneira importante.

Paulo não foi ao teatro. Ele até queria ir, mas deve ter sido convencido pelos seus discípulos e amigos que tinha entre as “autoridades da província” (v. 31) de que aquela não era uma decisão sábia pois poderia esquentar mais os ânimos. Se os seus companheiros macedônios haviam sido “arrastados” ao teatro, sabe-se lá o que fariam com ele. Ficou onde estava. Também não parece ter se sentido na obrigação de defender a “honra de Deus” – assim que o tumulto termina, ele vai da cidade prosseguindo seu ministério. Deus não precisa de advogado, nos é que precisamos do Advogado (1 João 2:1). Deus quer pessoas que anunciem o evangelho e Paulo vinha fazendo isso por mais de dois anos naquela região.

Paulo e seus companheiros não haviam roubado templos nem saíram a falar mal da deusa dos efésios, e isso é atestado pelo escrivão pagão. Não havia porque agredir a fé dos descrentes, pois tinha-se tanto a ser falado de Cristo que falar de Ártemis ou qualquer outro que não Cristo era perder tempo precioso.

A nossa reação como cristãos

Caros leitores, os cristãos têm fé e crenças. Cristo é nosso Senhor e Salvador e a Sua Palavra é para nós regra de fé e prática. Você não é obrigado a gostar da propaganda A ou B. É seu direito não se agradar de produto X ou Y ou até mesmo querer deixar de comprar um produto de alguma marca. Contudo, entenda que algumas coisas são claras na Bíblia na nossa relação com os incrédulos. Você não vai a um bom médico porque ele pensa e age como você, mas porque ele é bom no que faz e você precisa se tratar de uma doença. Você precisa de um marceneiro que saiba fazer bons móveis, e não que vive a vida dele como você vive a sua.

Acho que essa analogia cabe aqui: O Boticário vende perfumes e se você deixar de comprar os produtos dele por que ele fez uma propaganda com casais gays, você também terá de deixar de parar de usar o seu computador que tem Windows. Se está lendo esse texto usando um IPhone ou um celular Android, pare agora. Terá de parar de comprar livros ou outros produtos pela Amazon ou WalMart ou Ponto Frio. Terá de parar de usar seu tênis da Nike, também não poderá comprar nada na Starbucks, nem tomar qualquer produto da Coca-Cola. Se você chegou aqui pelo Facebook, também deverá sair dessa rede social e não poderá assistir mais vídeos no YouTube. Ah! E se decidir mudar de marca de perfume, certifique-se que não é nenhuma ligada a Unilever (sabão Omo, marcas Dove e Clear, desodorante Axe, por exemplo, são dela). Adicionalmente não poderá ter conta no Itaú nem comprar uma bala Halls. Não poderá ir a Disney, voando pela Gol, pior ainda. Não poderá comer na Burger King nem comprar carro da Toyota, por melhores que esses carros sejam. Se seu computador é Dell, livre-se dele. Não entendeu o que eu estou dizendo? Veja esse texto: Essas 25 empresas apoiam o casamento gay.

Eu não estou dizendo que temos que abrir mão dos conceitos bíblicos ou da definição bíblica do que é certo e errado. Também não estou dizendo que temos de ser “politicamente corretos” e não dizer o que pensamos apenas para agradar. Também não estou dizendo que temos de gostar de propaganda A ou B. O que estou dizendo é que temos de ser coerentes e temos de ser bíblicos. Não baseie suas opiniões e atitudes na opinião de pastor A ou pastor B. Às vezes a preocupação deles é a mesma de Demétrio e seus companheiros. Baseie sua fé e prática na Bíblia, no que ela ensina.

Muitas vezes pessoas que não comungam da nossa fé podem agir em nosso favor, como mostra a atitude do escrivão da cidade de Éfeso. A isso Calvino chamou “graça comum”, que é aquela disponível a todos e que pode mover até a mão de um incrédulo a agir, sem saber, em favor da pregação do evangelho.

A “ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tiago 1:20). Entenda que a retribuição e a vingança pelo pecado cabe a Deus (Romanos 12:19-20). Lembre-se que tudo que ocorre está sob o mais absoluto controle dEle (Jeremias 3:37), inclusive as atitudes daqueles que não creem como nós. Entenda também que Deus constitui autoridades para serem a mão dEle sobre aqueles que praticam o mal, em especial, no meu entender, quando a matéria é direito penal (Romanos 13:1-5). Isto se aplica claramente no que parece ter acontecido na parada gay em São Paulo1.

Você está surpreso por uma propaganda de uma empresa que não se ajusta à pregação bíblica? Está surpreso porque uma transexual crucificada na parada gay em São Paulo zomba da cruz de Cristo? Bom, você não deveria se surpreender. Por um acaso não leu que “o mundo todo está sob o poder do maligno” (1 Jo 5:19)? Não leu também que aquilo que o pecado é e o mundo pratica “até mencionar é vergonhoso” (Efésios 5:12)?

Porque se ocupar falando sobre isso? Será que Cristo e as coisas do céu não produzem assunto suficiente para ocupar nossas rodas de conversa? Paulo tinha tanta coisa para falar de Jesus que não perdia tempo falando da deusa dos outros. Deixe a retribuição do pecado com Deus e devolva o mal com o bem. É assim que convenceremos o mundo. Os cristãos incomodam os incrédulos porque vivem em Cristo, com Cristo e por Cristo. Será que a igreja evangélica brasileira quer de fato viver o evangelho e pregar a mensagem ou será que alguns estão apenas querendo gerar calor midiático e chamar a atenção? Será que o deus desses pseudo-líderes cristãos não é o mesmo de Demétrio e seus companheiros?

Sim, eu me preocupo e incomodo com esse discurso de tolerância que de fato é repleto de intolerância. Na minha concepção, tolerar é admitir que algo que eu discordo exista. Hoje, surge uma disposição de alguns em redefinir isso como se tolerar fosse se calar e concordar. Sobre isso, recomendo o livro de D. A. Carson, ainda não traduzido para o português, The Intolerance of Tolerance.

Devemos agir com amor e naquilo que depender de nós, devemos ter paz com todos os homens (veja Romanos 12:18).

Para terminar, não adianta querer sair do mundo. Jesus já disse que vamos ficar por aqui, pelo menos até Ele voltar, mas rogou ao Pai para que sejamos preservados do maligno (João 17:15). Tenha uma boa semana.

Imagem: GospelMais

1Na parada gay parece ter acontecido mais do que a profanação de um símbolo caro a nós cristãos, há indícios de que outras atitudes de violação da legislação brasileira ocorreram com pessoas praticando sexo oral em vias públicas (Pode-se praticar cristofobia sob o pretexto de combater a homofobia? Ou: o mi-mi-mi dos hipócritas e autoritários). Nesse caso se aplica aquilo que foi dito pelo escrivão de Éfeso: os cristãos que se sentiram incomodados e possuem evidências, podem, se desejarem, buscar os tribunais. O artigo 208 e 233 do código penal podem inclusive serem usados aqui (grifos nossos):

Art. 208 – Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso:

Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa.

Parágrafo único – Se há emprego de violência, a pena é aumentada de um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.

(…)

Art. 233 – Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:

Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.

Veja também

Seja o primeiro a comentar

Comente aqui