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8 fatores que encarecem o carro no Brasil

6 de março de 2016

Leia em 8 minutos

honda civic europeu

Esse carro custa na Europa o preço de um Uno no Brasil

É sabido que o Brasil tem o carro mais caro do mundo. Ele chega a custar quatro vezes o valor que é vendido nos Estados Unidos, por exemplo. Alguns mais afoitos dirão: “É culpa dos impostos”. Outro dirá: “Consequência do custo Brasil”. Ainda há outros que se apressarão em culpar a ganância dos empresários brasileiros. Ao contrário do que muitos pensam, não há uma explicação simples e única. No Brasil, o preço resiste mesmo a uma queda de vendas do setor. Abaixo seguem oito indicações que sinalizam o porquê de as montadoras praticarem um preço altíssimo e uma margem de lucro maior que no restante do mundo.

1) Os negócios são globais

O Brasil é um dos mercados, entre muitos outros. Não é o maior, ainda que seja um dos grandes. Logo, é normal, natural e justo que as empresas tratem os negócios de forma interligada. Assim, eventual prejuízo em um mercado é compensado pela margem de lucro maior em outro. O que acontece no Brasil envolve a Europa e os EUA.

2) Pouca gente tem carro

Quando se fala em ganhos de escala ou curva de crescimento, acredita-se que quanto maior a produção/vendas das empresas maior será a tendência a ter produtos mais baratos, afinal os custos fixos se diluem. Contudo, isso parece não acontecer no setor automotivo no Brasil, que apesar do aumento das vendas e produção nos últimos 10 anos (a quedas é coisa dos últimos dois anos) ainda possui preços altos.

O mercado vende muito, mas pouca gente ainda tem carro. Segundo dados do DENATRAN, no final de dezembro/2015 a quantidade de automóveis no Brasil era de 49,8 milhões. São poucos carros: para uma população de 200 milhões de habitantes temos cerca de 1 carro para cada 4 brasileiros. A título de comparação, nos EUA essa relação é de 1,2 estadunidenses para cada carro.

Isso impacta o preço do carro porque ainda há muitos potenciais consumidores no Brasil que não têm nem nunca tiveram carro. Ou seja, se apenas 25% da população brasileira tem um automóvel frente a 80% da população norte-americana, em terras tupiniquins ainda há um espectro de crescimento muito alto.

Se 75% da população no Brasil não tem carro, o desejo de comprar o primeiro carro empurra o preço para um piso alto. Não é de admirar que os carros “de entrada” no Brasil tenham preços de carros mais sofisticados em mercados mais maduros. Se a relação fosse inversa e 75% tivesse carro, o preço seria um forte desestímulo para a troca de veículo. Nada além do tempo corrige este fato.

3) Ambiente Regulatório

No Brasil a indústria automobilística é responsável por 20% do Produto Interno Bruto e, portanto, é muito importante na geração de emprego, renda e também no recolhimento de impostos. Assim, a legislação trabalha para favorecer esse setor através de maiores tributos a carros importados e em relação ao lobby que as montadoras exercem sobre o governo.

Acrescente-se a isso o fato de o Brasil ser um país com forte concentração de vendas. As quatro maiores montadoras, em 2011, foram responsáveis por 74% dos licenciamentos de automóveis no Brasil. Logicamente, elas se sentem mais à vontade para fixar margens mais altas no Brasil, pois se veem pouco ameaçadas.

É verdade que em termos competitivos estamos melhor que no passado, mas ainda não nos situamos em um patamar onde essa competição force os preços para baixo de maneira significativa. O processo de abertura e instalação de uma empresa nova no Brasil ainda é muito demorado e burocrático, o processo de gestão de pessoal e recolhimento de tributos (falaremos sobre isso em instantes) é muito confuso.

4) Custo tributário

Há indícios de que nossa carga tributária não é a principal culpada pelo preço exorbitante cobrado pelas montadoras. Não há carga tributária que justifique o mesmo carro ser vendido por 3 vezes o valor aqui do que o cobrado nos EUA ou México.

No entanto, gostaríamos de falar sobre o custo tributário, e não apenas a carga. É ingenuidade acreditar que os impostos não exercem sua influência. A legislação tributária brasileira é tão confusa, tão difícil de se compreender e também complicada de se operacionalizar. As empresas formam verdadeiros exércitos para recolher os tributos devidos. Tudo isto tem um custo, que logicamente será refletido no preço do veículo, mas constará na conta de pessoal e não de impostos a pagar. É uma barreira de entrada tremenda a novos competidores.

5) Transporte público

Outro fator que contribui para o preço exorbitante do carro no Brasil é um sistema de transporte público ruim. Uma das formas de competir não é um concorrente direto, mas um produto substituto. É o caso do transporte público em relação ao uso de veículos automotores.

Se tivéssemos serviços de ônibus e metrô decentes, a motivação que alguém sentiria para comprar um automóvel seria menor, pois não precisaria dele para trabalhar, mas apenas para o lazer.

6) Segurança Pública

Um detalhe que poucos falam, mas que também contribui para elevar o preço do automóvel no Brasil é o medo de assaltos e sequestros. Sei de pessoas que não compram carros caros ou vistosos por medo de chamarem a atenção de algum bandido.

Suponhamos que estes não são a maioria, talvez apenas 5% dos consumidores (ainda achando que estamos sendo muito conservadores com esta premissa). É o suficiente para acreditar que 5% dos carros de entrada (portanto, do faturamento neste seguimento) sejam de pessoas que poderiam comprar carros mais sofisticados, mas não o fazem. Independente do preço que eles possam ter.

7) Falta qualificação

No Brasil, um dos motivos de nossa baixa produtividade é o nível educacional. Parece que isso não tem relação com o preço do veículo, mas tem sim. Nos EUA e Europa o trabalhador da indústria automobilística consome o produto que fabrica – e só o faz porque seu nível educacional e produtividade são mais altos, o que lhe permite um salário maior e, portanto, a oportunidade de consumo. Isso faz com que ele conheça, de perto, o produto que fabrica e possa influenciar diretamente na produção, qualidade e melhorias do veículo. No Brasil, eventualmente se tem um trabalhador esperto o suficiente para promover essas melhorias, mas não há um verdadeiro “exército” como ocorre nos EUA e Europa.

8) Disposição de pagar

Por último, e não menos importante. O brasileiro condescende com esse preço alto (por vezes abusivo). É incompreensível que um dos carros mais “pelados” do mercado era o mais vendido até pouco tempo atrás. Felizmente esse fato parece vir mudando – o brasileiro parece começar a valorizar coisas como segurança, conforto e qualidade, em vez de design, aparência e marca. Mas ainda estamos muito longe do ideal.

Percebe-se, portanto, que não estamos falando de um único aspecto. Não há apenas um motivo, mas vários. Criticar apenas a “ganância” dos empresários é ver de forma muito simplista o problema, assim como também é simplista colocar toda a culpa no governo, ainda que grande parte da solução passe por ele como regulador de maior competição e como prestador de serviços públicos.

Imagem: Car and Driver

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