Cristianismo

O livre-arbítrio existe?

3 de abril de 2016

Leia em 8 minutos

mulher escolhendoÉ uma tarde chuvosa e o programa de lazer fora de casa não pode mais acontecer. Todo o planejamento que durou a semana foi frustrado por causa de uma chuva torrencial que decidiu desabar desde as 13h. Tendo prazer em praticar esportes e passar tempo em meio a natureza, Leandro está chateado por não conseguir por em ação o plano de fazer uma trilha em um parque próximo a sua casa. Ele se pergunta, então, o que fazer?

Na história fictícia acima, Leandro precisa decidir o que fará da sua tarde em virtude de não poder implementar aquilo que queria. Certamente, assim como ele tem prazer em praticar esportes, ele certamente buscará algo que lhe agrade, ainda que dentro de casa. Talvez ler um livro. Talvez assistir televisão. Talvez telefonar para alguém. Uma certeza temos: ele evitará fazer aquilo que lhe cause aborrecimento.

Dentre as diversas opções que ele tem ao alcance de suas mão, quão livre ele é para tomar a decisão? O livre-arbítrio existe? O que é o livre-arbítrio? O que é arbítrio?

Segundo o dicionário, arbítrio é “resolução, determinação dependente apenas da vontade”. Arbítrio é de fato sinônimo de vontade, decisão. Logo, livre-arbítrio seria a capacidade que alguém tem de tomar uma decisão livremente, apenas com sua força de vontade. “There are no strings on me”, como diria Ultron para os Vingadores. O blog Bereianos em seu post A Irracionalidade do Conceito de Livre Arbítrio ou da Autonomia da Vontade define livre-arbítrio da seguinte forma:

A premissa básica nada mais é que afirmar a autonomia da vontade do ser humano, como se esta fosse livre de qualquer causação, ou seja, não existe nada que limite ou domine a liberdade do homem, ele escolhe o que bem entender, do modo que bem entender, livre de qualquer influência definitiva nas escolhas que faz.

O ser humano tem a capacidade de decidir o que fará, apenas por força de sua vontade?

A ciência parece indicar que o livre-arbítrio não existe, seria apenas uma ilusão. De fato, antes de agirmos de determinada maneira o cérebro já disparou os sinais para que agíssemos de uma determinada forma, antes mesmo que tivéssemos consciência disso. No campo religioso, esse debate também existe.

Há aqueles que acreditam que o homem consegue exercer sua vontade com autonomia – é comum vermos cristãos falarem “Deus respeita seu livre arbítrio”. Este grupo sustenta que essa liberdade é de tal forma ampla que o ser humano pode escolher, sem intervenção divina, entre o bem e o mal – afinal, se o arbítrio (a vontade) é livre e nada o prende, nossa natureza pecaminosa não nos impediria de decidir fazer o bem. Contudo, outros cristãos dizem que o ser humano perdeu seu livre-arbítrio quando Adão pecou. O que teríamos, portanto, seria “livre-agência”. Os que defendem essa segunda posição esclarecem que o ser humano é livre para agir em certos aspectos de sua vida que não tem a ver com o exercício da obediência a Deus. O Rev. Hernandes Dias Lopes define livre-agência como:

(…) a capacidade de decidir se vamos morar nesta ou naquela cidade; se vamos estudar nesta ou naquela escola. Não temos, porém, a capacidade de escolher entre o bem e o mal e o poder inerente de praticar o bem. Depois da queda, toda a nossa vontade foi contaminada e afetada pelo pecado.

Há, certamente, um problema semântico. Muitos dos que usam o termo “livre-arbítrio”, querem de fato se referir à livre-agência. Não quero disputar terminologias, mas há questões de conceito que precisam ser esclarecidas. Podemos dizer que ambas as posições defendem que o ser humano tem um certo grau de liberdade.

Nós advogamos a segunda posição, ou seja, o ser humano, depois da queda, teve sua natureza de tal forma corrompida que não pode decidir, por livre e espontânea vontade, pelo bem. Nossa natureza não-regenerada nos empurra para o mal. Apenas através de uma ação divina somos impelidos a fazer o bem – a isso chamamos “graça” (Ef 2:1-5).

A Bíblia nos apoia, creio, nesse aspecto. O ser humano que não foi tocado pela graça salvadora* é “escravo do pecado” (Rm 6:6; cf. Cl 1:21), está sob o “jugo de escravidão” (Gl 5:1). A liberdade advém de Cristo e é originada em Deus (Sl 119:45; Lc 4:18; Jo 8:31-32, 36; Rm 3:21-24; 8:1-2; 19-21; 2 Co 3:17). Portanto, a Bíblia não fala de um cenário anterior a intervenção especial de Deus nos crentes como um cenário onde se poderia empregar o termo “liberdade”, pelo menos não no sentido de que o ser humano consegue optar livremente pelo bem. De fato, o apóstolo Paulo é absolutamente taxativo:

Como está escrito: “Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”. Romanos 3:10-12

Antes do dilúvio Deus diz sobre o homem que “toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal”. Depois o cenário não parece ter mudado, pois ele afirma que “seu coração é inteiramente inclinado para o mal” (Gn 6:5; 8:21).

Nossa natureza é pecadora e o único que pode direcionar nossa vontade na direção daquilo que é bom é o Senhor – de fato, ser liberto do pecado significa tornar-se “escravo de Deus” (Rm 6:22). Nosso arbítrio está cativo sempre a algo, se não estiver cativo a Deus estará ao pecado. Entretanto, vale dizer que não vivemos uma liberdade plena. De fato, Paulo e Pedro advertem que mesmo cristãos devem ser vigilantes e atentos, não usando da liberdade que recebemos para dar lugar ao pecado e à maldade (Gl 5:13; 1 Pe 2:16).

Para ilustrar este ponto, gosto bastante da analogia sobre os “dois leões”. Antes tínhamos apenas um leão dentro de nós, vamos chamá-lo de “natureza pecaminosa”. Ele reinava sozinho, soberano. Um dia então, Deus colocou um outro leão nessa arena. Ele derrotou o primeiro leão. O primeiro leão continua lá, adormecido, fraco, mas está lá. De vez em quando ele ensaia ganhar força e começa a lutar com o segundo leão. Aquele leão que melhor alimentarmos vai ganhar essa luta. Chegará o dia, e já está às portas, que o Senhor arrancará da arena o primeiro leão.

Voltando a nossa história, Leandro tomará uma decisão que está sujeita àquele que controla sua vida, seja o Senhor ou o pecado. No fim, independente do que ele decidir, Deus opera na história e sua decisão é dependente daquele a quem ele é escravo.

Imagem: Courtney Rioux

*Até onde sei, Calvino fazia diferença entre a graça salvadora, que opera sobre aqueles que são salvos por Deus, e a graça comum, a ação de Deus que opera sobre os não-salvos e os leva a tomar decisões voltadas para o bem que estão de acordo com os desígnios do Pai. Contudo, ambas são ações divinas, de tal forma que o bem gerado no mundo vem a partir da intervenção especial de Deus na humanidade, seja por meio de ações dos salvos quanto dos não-salvos.

Veja também

Seja o primeiro a comentar

Comente aqui