Cristianismo

O brasileiro é de fato intolerante com a religião alheia?

27 de novembro de 2016

Leia em 5 minutos

theintoleranceoftolerance_capa“Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Esse foi o tema da redação do ENEM em 2016. Dentre os “textos motivadores” da proposta, um gráfico cujo título era “Intolerância religiosa no Brasil” onde se podia contemplar o número de denúncias de 2011 até julho de 2014 (imagem abaixo) distribuído pela religião da vítima e informados pela Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República. O tema proposto leva a uma conclusão não tão implícita assim: a intolerância religiosa no Brasil é tamanha que precisa ser “combatida”.

Não entro no mérito da existência ou não de casos de intolerância religiosa no Brasil. Sim, eles existem! Entretanto, o brasileiro não é tão intolerante como a proposta parece querer induzir os alunos a pensar e podemos perceber isso partindo dos próprios dados oferecidos pela prova.

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Relação População Brasileira versus quantidade de crimes por ano

Os dados apresentados abarcam o intervalo que vai de 2011 até julho de 2014: 43 meses. Como não temos a distribuição mensal destas denúncias, o máximo que podemos fazer é calcular a média anual de denúncias e chegaremos a algo próximo de 120 denúncias anuais (9,97/mês). Estimando a população brasileira em 200 milhões, temos então uma taxa de 0,06 denúncias para cada 100 mil habitantes.

Posto de outra forma, supondo que cada denúncia desta foi cometida por um agressor diferente, significa dizer que há um intolerante com a religião alheia em cada 1,67 milhão de brasileiros. Isso equivale a 0,00006%. É isso mesmo: segundo os dados oferecidos pelo próprio ENEM a intolerância religiosa brasileira é de 0,00006%. Isso supondo que a relação denúncia versus agressor é de 1 para 1 (muito provavelmente há intersecção em alguns casos e agressores reincidentes).

Outros detalhes que não devem passar despercebidos

Subnotificação

Pode-se argumentar que esses casos estão subnotificados (ou seja, há mais casos de intolerância do que aqueles que são efetivamente denunciados). Isso não somente é possível como muito provável. Entretanto, também há de se considerar que a informação oferecida na prova trata de denúncias. Quantas dessas são apuradas e se constata que são, realmente, casos de intolerância? Não sabemos, portanto, quantos são, de fato, os casos de intolerância religiosa no Brasil. Entrementes, vamos trabalhar com os números que temos pois são a informação mais segura que possuímos.

Quem são os agressores?

Há um outro detalhe que vale mencionar: a redação do ENEM trazia a informação distribuída pela religião da vítima, mas qual a religião do agressor? Essa é uma informação que não temos. Acredito, contudo, que tão importante quanto saber qual a confissão religiosa de quem sofre a ofensa é saber qual a confissão religiosa (se é que há alguma) dos agressores.

Creio que é importante esse esclarecimento porque há um inconsciente coletivo no Brasil de que a religião mais agredida (afro-brasileira) teria como principais agressores pessoas que confessam a segunda mais agredida (evangélica). Será que de fato é isso? Não sabemos. Façamos um exercício que, já adianto, é impreciso porque se baseia em largas suposições, mas que tem o seu valor para elucidar algumas ideias de parte do imaginário brasileiro.

Suponha que, apesar de muito improvável, todas as 75 agressões (21 agressões em um ano) a religiões de matriz africana tenham sido cometidas por evangélicos (população evangélica estimada no Brasil: 42 milhões). Isso quer dizer que há apenas 1 caso para cada 2 milhões de evangélicos brasileiros onde se agride membros de religiões de matriz africana. É menos que a média nacional que abordamos no quarto parágrafo. Atenção: é possível, e altamente provável, que os cristãos (e incluo os católicos aqui) sejam mais tolerantes que a média nacional.

Julgo relevante saber quem é o intolerante. Qual o perfil dele? Em que ele acredita? Por que acredita assim? O que se pode fazer para diminuir ainda mais esses casos, que, reitero, ocorrem em pouca quantidade?

Qual a religião mais agredida no Brasil?

Esta foi a observação de um aluno que prestou o ENEM de 2016 e que vi no Facebook. Se somarmos os casos em que a vítima é cristã (evangélicos, 58, e católicos, 22) a manchete do gráfico teria de ser “Cristãos são as principais vítimas de discriminação”. “Cristãos” ou “Cristianismo” é um termo tão genérico quanto religião “afro-brasileira”. Mas eu acho que, pelo fato de os cristãos não serem minoria, o gráfico não ficaria politicamente correto.

Essas são breves considerações sobre a proposta de redação do ENEM. Fiquem à vontade para criticá-las, comentá-las e compartilhá-las.

Imagem da prova: G1.

PS: um livro que oferece uma boa discussão sobre o assunto é The Intolerance of Tolerance (A Intolerância da Tolerância), de D. A. Carson.

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