Cristianismo

Paulo, as esposas, os maridos e a submissão mútua

12 de fevereiro de 2017

Leia em 6 minutos

Homem-mulher-ministerioUm dos graves problemas da sociedade atual é tentar ler o passado com as lentes do presente. Isso resvala, por exemplo, nas questões de igualdade entre os sexos da nossa sociedade e a relação entre homens e mulheres na Bíblia. Neste contexto, é comum alguns lembrarem dos dizeres de Paulo em Efésios 5:22 “As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor”.

“Tá vendo só, a Bíblia é machista”, afirma o apressado.

É preciso, contudo, listar alguns fatos que a maioria das pessoas ignora e que podem levar alguns a acreditarem que a Bíblia é uma literatura machista.

Em primeiro lugar, Paulo escreve no primeiro século, em uma sociedade patriarcal. Apesar de afetar profundamente nossas relações sociais, a Bíblia é escrita dentro de um contexto sócio-cultural que não pode ser ignorado. Sustento, entretanto, que os ensinos bíblicos aplicados em cada era tendem a elevar o patamar moral do meio, sempre com a ressalva de que o ideal nunca será construído nesta terra. Isto não quer dizer que não possamos dar um passo a frente, em vez de tentar “saltar” todo um contexto cultural comprometendo possíveis conquistas futuras a serem alcançadas com mudanças graduais.

Em segundo lugar, as pessoas que gostam de mencionar Efésios 5:22, frequentemente esquecem de dizer (quero crer que por ignorância) que o mesmo autor que escreveu sobre a submissão das esposas aos maridos, também escreve “Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5:25). Algumas coisas no texto são bastante “revolucionárias” (se gostam dessa palavra, ok) para aquela sociedade: a) repare que Paulo fala em “mulher”, no singular. Ele parte do pressuposto de que os cristãos são monogâmicos, ou seja, prega uma exclusividade do homem à mulher. b) O homem não tem que dedicar um amor parcial à mulher, mas um amor completo a ponto de, se preciso for, morrer por ela. Isso não soa muito machista, não é?

Biblicamente, o amor é a maior declaração de submissão que existe. Quem ama se entrega, quem ama serve, quem ama transmite carinho, compreensão, diálogo. Paulo não lista as responsabilidades apenas da mulher, ele também lista responsabilidades do esposo. É a esse esposo, que se compromete à fidelidade e ao amor completo, que Paulo apela para que a mulher seja submissa “como ao Senhor”. Se o marido se afasta disso, a mulher não deve ser submissa, pois o marido não cumpre as suas responsabilidades.

Outros textos ignorados

Paulo também trata em outras cartas do compromisso entre marido e mulher e se mostra bastante avançado para uma sociedade em que a mulher era considerada propriedade do marido e em que um escravo era, por vezes, tido por superior à esposa.

Paulo deixa claro que:

1) A mulher e o marido são co-dependentes um do outro. Ou seja, ninguém é propriedade de ninguém e o vínculo que deve existir é de amor “no Senhor”. Há uma relação de igualdade e não de propriedade. Isto é uma afronta à cultura da época.

“No Senhor, todavia, a mulher não é independente do homem, nem o homem independente da mulher.” 1 Coríntios 11:11

“O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma forma a mulher para com o seu marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher.” 1 Coríntios 7:3,4

2) Os maridos não deveriam tratar suas esposas “com amargura”. Ou seja, Paulo ensina claramente que violência, verbal ou física, não devem fazer parte do ambiente doméstico (aliás, de nenhum ambiente).

“Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, como convém a quem está no Senhor. Maridos, amem suas mulheres e não as tratem com amargura.” Colossenses 3:18,19

3) A mulher não era obrigada a permanecer casada com um marido que a abandona. Está livre para casar-se novamente. Eu acredito que, partindo deste princípio, a mulher que vive com um homem violento também está livre para dele se separar caso acredite que o caso é irremediável. Um marido ou pai violento já abandonou sua família, ainda que continue morando debaixo do mesmo teto.

“Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz.” 1 Coríntios 7:15

Por fim, gostaria de destacar que muitos vêem “submissão” escrito, mas lêem “opressão”. Paulo não está dizendo “permaneçam casadas com seus maridos ainda que eles as oprimam”. Nada mais longe da verdade! Ninguém é obrigado a permanecer casado ou casada com um cônjuge que oprime, castiga e violenta. Antes de tudo, o casamento deve ser voluntário, fruto de dois corações que se ligam.

Penso que a Bíblia não prega a superioridade de um sobre o outro, mas que, dentro de um acordo voluntário de união (chamamos a isso casamento) maridos e mulheres, à despeito dos papéis diferentes que têm e que desempenham, são iguais e dignos de respeito mútuo.

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