Cristianismo

Resenha: A abolição do homem, de C. S. Lewis

7 de maio de 2017

Leia em 4 minutos

A abolição do homem - capaA abolição do homem é daqueles livros que você começa a ler sem saber direito o que vai encontrar, mas que pela fama e prestígio do autor,  C. S. Lewis, sabe que sairá da leitura maior do que entrou.

Mais denso do que se pode acreditar à primeira vista, suas menos de 100 páginas podem ser percorridas em uma ou duas tardes numa primeira leitura.  De fato, gastamos uma tarde para ler, mas levamos cerca de duas semanas (dividindo espaço com outras obras) para produzir esta breve análise de maneira que tivéssemos segurança de transmitir a essência do livro.

O autor das Crônicas de Nárnia costuma ser mais prolixo do que o leitor médio está acostumado e, por alguma razão que não entendemos, a edição da Martins Fontes não traduz (nem em notas de rodapé) alguns termos gravados em alfabeto grego ao longo do livro. Uma vez que Lewis lança mão deste expediente pouquíssimas vezes, o sentido e a coesão do livro não ficam comprometidos com essa dificuldade.

Sendo um livro de filosofia moral, sua intenção básica é tratar do que é chamado no livro de Tao, termo que Lewis empresta do chinês para denominar o que ele chama também de “valores tradicionais”.

O Tao seria o conjunto de valores estabelecidos em diversas culturas da humanidade e consolidadas pela tradição. Ele menciona especificamente as tradições platônica, aristotélica, estóica, cristã e oriental. O termo Tao deriva da tradição oriental. Por mais que existam diferenças entre estas tradições, C. S. Lewis sustenta que:

“há entre elas algo em comum que não pode ser negligenciado. É a doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas posturas são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas, a respeito do que é o universo e do que somos nós” p. 17.

Em linhas gerais, é um livro que se levanta contra o relativismo moral tão presente em nosso século (o livro foi publicado a primeira vez em 1943, no contexto da 2ª Guerra Mundial).CS Lewis e Aslam

A abolição do homem se divide em três capítulos: 1. Homens sem peito; 2. O caminho; e 3. A abolição do homem; além de um apêndice com “exemplos do Tao”. No primeiro capítulo ele destaca o problema partindo de alguns casos ocorrendo no sistema educacional do Reino Unido (ele escreve num contexto britânico), que parece estar tentando produzir relativistas, homens que abandonam os  valores tradicionais e os absolutos morais. A estes ele chama de “homens sem peito”. Conservadores se identificarão com o livro.

O segundo capítulo é a apresentação dos caminhos para onde essas duas cosmovisões nos levariam. A falta de apreço pela moral tradicional conduziria a humanidade a própria decadência e extinção, não exatamente no sentido físico-material, mas no sentido moral e, de maneira tácita, espiritual. O segundo capítulo é a ponte para o terceiro onde ele falará da busca incessante pela conquista da natureza humana, transformando-a em um mero objeto de investigação científica que conduzirá para fora daquilo que nos torna intrinsicamente humanos. Nas palavras de Lewis:

“A conquista final do homem mostrou-se a abolição do Homem. (…) A conquista do Homem sobre a Natureza revela-se, no momento da sua consumação, a conquista da Natureza sobre o Homem” p. 61, 64

Ao leitor dedicado, o livro, apesar de denso, recompensa a leitura e apresenta uma breve mas profunda discussão sobre valores morais e lei natural. Importante e rico para “homens com peito’, sobretudo cristãos.

A abolição do homem, na Amazon, na Saraiva, na Livraria Cultura e na própria editora Martins Fontes.

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12 Comentários

  • Reply Jules 16 de julho de 2017 at 23:32

    Excelente resenha. Obrigada.

    • Reply Bruno Saavedra 17 de julho de 2017 at 20:17

      Que bom que gostou. Obrigado Jules.

  • Reply Elaine 27 de agosto de 2017 at 01:35

    Obrigada pela resenha. Depois de ler dois livros anteriores de Lewis: Carta de um diabo ao seu aprendiz e Cristianismo puro e simples, tive dificuldade na densidade das 100 páginas do livro Abolição do homem. Apesar de um número reduzido de páginas o contéudo é mais complexo.

    • Reply Bruno Saavedra 27 de agosto de 2017 at 14:40

      Elaine, não precisa agradecer. 😉
      De fato, o livro é bastante denso. Tive dificuldade de entender completamente, apesar das poucas páginas (e até hoje acho que descobrirei novas coisas quando o ler de novo).

      Obrigado pelo comentário.

  • Reply CLAVIO JUVENAL JACINTO 5 de setembro de 2017 at 18:33

    Um livro que precisa ser lido com calma, porém precisa ser lido, mais que um breve tratado filosofico, é uma advertencia, uma profecia…o começo do relativismo moral é tambem o começo do fim da humanidade…

    • Reply Bruno Saavedra 9 de setembro de 2017 at 18:15

      Obrigado, Juvenal, por seu comentário. Uma leitura mais que necessária: imprescindível.

  • Reply Nilton 18 de setembro de 2017 at 15:54

    Ótima resenha, Bruno. Li este livro na semana passada e pude entender do porquê de ser um livro pequeno e relativamente caro. Vale demais a leitura. Abraço.

    • Reply Bruno Saavedra 19 de setembro de 2017 at 14:55

      Obrigado, Nilton, pelo elogio. De fato é um livro excelente.

  • Reply Ugo Mello 19 de setembro de 2017 at 13:42

    Fica a pergunta: Como pode um livro ser ao mesmo tempo, tão “antigo”, no sentido que foi escrito no século passado, mas ao mesmo tempo comportar idéias tão atuais diante da loucura que se tornou o mundo em que vivemos hoje, onde valores tão caros à nossa civilização são colocados a prova a cada dia? A primeira vista realmente é um texto complexo em se tratando de uma reflexão filosófica sobre a moral, mas com paciência e fazendo-se uma contextualização com os acontecimentos do mundo atual, tudo se torna mais claro. Musculação para o cérebro. Rs… Brincadeiras à parte, comprei o livro sem saber muito bem qual era o assunto, pois só conhecia o autor pela sua obra mais conhecida e comentada “As Crônicas de Nárnia” e fiquei surpreso pelo conteúdo tão enriquecedor. Vou lê-lo mais de uma vez se for preciso para uma melhor compreensão do conteúdo, mas pelo que eu já lí me esclareceu muito. Leitura recomendadíssima!

    • Reply Bruno Saavedra 19 de setembro de 2017 at 14:56

      Ugo, alguns livros são longevos pela sua relevância e temas atemporais. Este é um deles. Obrigado por comentar.

      • Reply Ugo Mello 19 de setembro de 2017 at 15:50

        Com certeza! Agora mesmo estou cotando o preço dos outros livros do autor para ler. O próximo da lista será “Cristianismo Puro e Simples” ou “Os Quatro Amores.” Indico também, de Charles Colson “O Cristão Na Cultura de Hoje – Desenvolvendo Uma Visão de Mundo Autenticamente Cristã.” Um abraço!

        • Reply Bruno Saavedra 25 de setembro de 2017 at 17:56

          Ugo, vamos em frente. Estou lendo Cristianismo Puro e Simples. Em breve farei uma resenha dele também. Abraços e perdão pela demora em respondê-lo.

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