Cristianismo

A Reforma resgatou o Evangelho

29 de outubro de 2017

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O artigo abaixo é uma tradução do texto The Reformation rescued the Gospel, publicado pelo Pr. R. C. Sproul em janeiro deste ano no site Gospel Coalition. Publicamos este texto considerando que no próximo dia 31/10/2017 a Reforma completa 500 anos.

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Martinho Lutero - Reforma ProtestanteNa cidade velha de Genebra, na Suíça, há um parque encantador adjacente à Universidade de Genebra, perto da igreja onde João Calvino pregava e ensinava diariamente. O parque contém um memorial duradouro da Reforma Protestante do século XVI. A característica central é uma parede magnífica adornada com estátuas de Calvino, John Knox, Zwínglio, Teodoro Beza e outros. Cinzelados na pedra estão as palavras latinas Post tenebras lux (“Depois da escuridão, luz”).

Essas palavras capturam a força motriz da Reforma. A escuridão referida é o eclipse do evangelho no final da Idade Média. Um escurecimento gradual atingiu seu nadir, e a luz da doutrina da justificação somente pela fé estava quase extinta.

COMBUSTÍVEL PARA O FOGO

O incêndio1 da reforma foi alimentado pela questão mais volátil já debatida na história da igreja. A igreja enfrentou crises graves no passado, especialmente nos séculos IV e V, quando a natureza de Cristo estava em jogo. A heresia ariana do século IV culminou no Concílio de Niceia e no Credo Niceno. O século V testemunhou a luta da igreja contra as herisias monofisitas e nestorianas que resultaram na clara declaração do Conselho da Calcedônia sobre a humanidade e a divindade de Cristo. Desde Niceia e Calcedônia, as decisões ecumênicas desses conselhos têm servido de referência para a ortodoxia cristã histórica. As doutrinas da Trindade e a união das naturezas divinas e humanas de Cristo têm sido consideradas, quase universalmente, como princípios fundamentais da fé cristã.

Toda geração ao longo da história da igreja tem lutas e debates doutrinários. Heresias de todos os tipos concebíveis têm atormentado a igreja e provocado argumentos ferozes, até mesmo cismas.

Mas nenhuma disputa doutrinária já foi contestada de forma mais feroz ou com consequências tão longas quanto a de justificação. Houve outras questões auxiliares debatidas no século 16, mas nenhuma tão central ou tão aquecida como esta.

Os historiadores geralmente descrevem a justificatificação como a causa material da Reforma. Ou seja, foi a questão substantiva e central do debate. Foi essa doutrina que levou à ruptura mais profunda da cristandade e à fragmentação da igreja em milhares de denominações.

SOLA FIDE OU RUPTURA

Como uma disputa sobre uma doutrina pode causar tantos fragmentos e provocar tanta hostilidade? Era simplesmente um caso de conflito entre teólogos contenciosos, obstétricos e belicosos, inclinados a guerrear em questões triviais? Foi um caso de repetidos mal-entendidos provocando uma tempestade em copo d’água – muito sobre nada?

Sabemos como se sentiu Martinho Lutero sobre a controvérsia. Ele chamou a justificação somente pela fé de “o artigo sobre o qual a igreja permanece de pé ou cai” (articulus stantis et cadentis ecclesiae). Esta afirmação de importância central estava ligada ao vínculo que Lutero identificava entre a justificação somente pela fé (sola fide) e o evangelho. A “boa notícia” do Novo Testamento inclui não apenas um anúncio da pessoa de Cristo e seu trabalho em nosso favor, mas também uma declaração de como os benefícios da obra de Cristo são apropriados pelo2 crente.

A questão de como a justificação e a salvação são recebidas tornou-se o principal ponto de debate. A insistência de Lutero na sola fide foi baseada na convicção de que o “como” da justificação é necessário e essencial para o próprio evangelho. Ele considerava a justificação somente pela fé como necessária e essencial para o evangelho e para a salvação.

Uma vez que o evangelho está no cerne da fé cristã, Lutero e outros Reformadores consideraram o debate sobre a justificação como envolvendo uma verdade essencial do Cristianismo, uma doutrina não menos essencial que a Trindade ou a natureza dual de Cristo. Sem o evangelho, a igreja cai. Sem o evangelho, a igreja não é mais a igreja.

Os Reformadores seguiram essa lógica:

  1. A justificação pela fé é essencial para o evangelho.
  2. O evangelho é essencial para o Cristianismo e para a salvação.
  3. O evangelho é essencial para que a igreja seja uma verdadeira igreja.
  4. Rejeitar a justificação pela fé é rejeitar o evangelho e cair como igreja.

DEIXANDO A ESCURIDÃO PARA TRÁS

Os Reformadores concluíram que quando Roma rejeitou e condenou a sola fide, condenou-se e deixou de ser uma verdadeira igreja. Isso precipitou a criação de novas comunhões ou denominações buscando continuar o Cristianismo bíblico e ser igrejas verdadeiras com um evangelho verdadeiro. Eles procuraram resgatar o evangelho da ameaça iminente do eclipse total.

A metáfora do eclipse é útil. Um eclipse do sol não destrói o sol; ele obscurece-o. Traz a escuridão para onde havia luz. Os Reformadores procuraram remover o eclipse para que a luz do evangelho pudesse novamente brilhar plenamente e ser vista com clareza.

A vida da igreja protestante do século XVI estava longe de ser perfeita, mas o ressurgimento da piedade naquela época atesta o poder do evangelho quando visto em plena luz.

1No original: firestorm.
2No original: “através, dentro e em favor”.

Imagem: ThoughtCo

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