Política

O Brasil, a Monarquia e o Mito do Déspota Esclarecido

26 de novembro de 2017

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A vontade brasileira inconsciente de retorno da Monarquia foi deturpada para a ilusão do déspota esclarecido: aquele virá nos salvar dos nefastos e terríveis homens que querem nos usar, matar e roubar.

D. PedroII, em 1885 - Monarquia

D. Pedro II, em 1885

Li, recentemente, no volume 1 de uma obra chamada “O Espírito Conservador“, o texto “Orfandade Monarquista e Comportamento Eleitoral no Brasil”. Neste texto, de Reno Martins, somos levados a refletir como, desde o golpe da República (que é chamado de “proclamação”) em nov/1889, o Brasil se vê órfão da “figura paternal do Imperador” e como isso tem afetado nossas eleições presidenciais desde então.

O brasileiro até hoje não conseguiu assimilar que para a posição de Presidente da República precisamos de um “papel implementador e administrativo”. Isto é, o Presidente precisa ser alguém que consiga manobrar de maneira inteligente e competente o Executivo sem intervir nas forças constitucionais legislativas e judiciárias. Numa Monarquia constitucional (como a que tivemos de 1824 a 1889) o Rei ou Imperador “representa a reserva moral da nação, com capacidade de intervir sempre que a própria moralidade pública é ameaçada, seja na esfera política ou administrativa”.

Em nossa Monarquia, ao Imperador cabia a salvaguarda da moralidade da coisa pública (res publica) e ao 1º ministro a responsabilidade pela administração dessa res publica. De certa forma, como já disse Leandro Narloch no Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, nossa Monarquia era mais republicana que a república que veio a seguir.

Uma vez que não foi a população que escolheu a queda da Monarquia e a transição para um modelo republicano que preservasse estes dois pilares, optou-se  pela concentração dessas duas características em um só personagem: o Presidente.

É claro que não daria certo.

O inconsciente coletivo brasileiro pede a Monarquia

No inconsciente coletivo da nação há um desejo monarquista latente. A cada eleição tentamos eleger um presidente que não seja um bom gestor, mas que seja uma “reserva moral” como o foi D. Pedro II e como tenderia a ser a Princesa (Rainha) Isabel. Como pontua Reno:

O povo brasileiro vive numa república, mas sua psicologia o leva a eleger candidatos que considera como bons monarcas. Nunca faltaram oportunistas a explorar este fato.

Lamentavelmente, o caráter de alguém não pode ser reconhecido apenas por sua vida voluntariamente divulgada. É preciso conhecer-lhe o berço, e do berço, sua família, trajetória, anseios, receios e, até, defeitos de personalidade. Enquanto isso não for devidamente assimilado pela sociedade, nossas eleições presidenciais republicanas tenderão sempre ao desastre.

Tiago Amorim em Povo Neurótico, citado por Reno: “Getúlio, Juscelino ou Lula só foram possíveis porque os filhos do Brasil querem um novo pai que lhes diga o que fazer, a que horas comer e no que acreditar”. O mesmo fenômeno se verifica agora, em determinada parcela da população, com Bolsonaro e explica, em parte, sua ascensão nas pesquisas.

O brasileiro clama em seu íntimo por um rei. E isso somente será suprido se o regime for mudado separando, novamente, os dois pilares: ou por meio do retorno a uma monarquia constitucional (minha opção preferida, trazendo de volta os Orleans e Bragança) ou pela implementação de uma república parlamentarista nos moldes alemão ou polonês.

Imagem: Brasiliana Fotográfica

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